24 de agosto de 2016

A uma Mulher


A uma Mulher

Para tristezas, para dor nasceste.
Podia a sorte pôr-te o berço estreito
N'algum palácio e ao pé de régio leito,
Em vez d'este areal onde cresceste:

Podia abrir-te as flores — com que veste
As ricas e as felizes — n'esse peito:
Fazer-te... o que a Fortuna há sempre feito...
Terias sempre a sorte que tiveste!

Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos,
Que não são d'este mundo e onde eu leio
Uns mistérios tão tristes e infinitos,

Tua voz rara e esse ar vago e esquecido,
Tudo me diz a mim, e assim o creio,
Que para isto só tinhas nascido!

Antero de Quental, in "Sonetos"

21 de maio de 2016

Manhã


Manhã

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

Mia Couto

1 de maio de 2016

60 anos


60 anos!
60 anos se passaram desde o dia em que nasci.
Fui a 3ª de 4 filhos. Tenho um irmão mais velho e uma irmã mais nova. A primeira filha dos meus pais e minha irmã faleceu aos 10 meses de idade.
Não a conheci pessoalmente mas conheço-a através das palavras e emoção transmitidas pelas recordações da minha mãe.
Poderei dizer que a minha vida teve e tem tido de tudo.
Já passei por 2 guerras (uma em criança e outra já jovem adulta).
Vivi numa terra excepcional cuja seiva se entranhou no meu sangue.
Vivi com pouco, com muito pouco e isso fez-me dar valor ao essencial.
Meus pais transmitiram-me, tanto por palavras como por exemplos, que valemos o que somos, o que lemos, o que praticamos.
Aprendi a pensar muito cedo, a ter a minha opinião (para isso devorei livros) ou seja, a ser livre.
Realizei o sonho de ser médica apesar de muitas dificuldades financeiras.
Realizei o sonho de ser mãe - dois filhos educados, estudiosos, com valores ___ Nuno Salta  e Ana Rita (Sano Ogawa).
Vivi em vários locais - Luso (agora Luena), Luanda, Lisboa, Luanda, Estoril, Santo António dos Cavaleiros, Vizela.
A minha caminhada tem tido momentos de muita felicidade como momentos de muita dor, esta dor que nunca irá passar.
60 anos e dou Graças a Deus porque, apesar de tudo, sou uma privilegiada por ter uma família, bons amigos, trabalho e ter tido sorte de ter nascido num país onde não se praticam diariamente atrocidades contra a humanidade.

12 de abril de 2016

Nunca, por Mais ....


Nunca, por Mais

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea —
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem —
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.

Álvaro de Campos, in "Poemas
Heterónimo de Fernando Pessoa

24 de março de 2016

De Quem é o Olhar__________



De Quem é o Olhar

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?

Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,

Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.

Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora —
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!

Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.

Fernando Pessoa

16 de março de 2016

Meu querido filho .......................



Meu querido filho,

No desfiar dos dias
perdida na tormenta
que a saudade e a dor
em laços a vida sustenta.
Lenta, lentamente
o cansaço, sem pedir licença,
o tempo de um futuro invade.
Tempo
que naquela manhã cinzenta
se desfez na tua eternidade.

45 meses sem ti meu amor!

MRS

5 de março de 2016

No avesso das palavras........................


No avesso das palavras

No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu impercetível crescer
como carne da lua
nos noturnos lábios entreabertos
E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio

Mia Couto in Raíz do Orvalho

21 de fevereiro de 2016

Quem és tu.......


Quem és tu

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

Sophia de Mello Breyner Andresen